Quem Faz a Mawon - Conheça Maria Clara
- Associação Brasileira de Apoio a Integração de Migrantes

- há 7 dias
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Maria Clara é estudante de Relações Internacionais e voluntária na Mawon há três anos. Saiba mais sobre sua atuação na ONG e como ela se conecta com sua trajetória acadêmica.

Poderia se apresentar resumidamente?
Me chamo Maria Clara, sou estudante de Relações Internacionais e atualmente trabalho com Comércio Exterior, mas o trabalho humanitário me tem.
Como você conheceu a Mawon e por quê decidiu se tornar voluntária?
Antes da Mawon, eu já atuava como voluntária na Cruz Vermelha, na área de Restabelecimento de Laços Familiares (RLF). Foi durante um seminário que conheci a Mawon e eu brinco que não foi coincidência, foi encontro mesmo, tinha que acontecer.
Quando conheci o trabalho, principalmente com imigrantes e refugiados haitianos, senti que ali havia algo muito conectado com o que eu estudava e com o que eu acreditava. A Mawon unia migração, dignidade, autonomia e justiça social e eu quis fazer parte disso.
Qual é sua área de atuação na Mawon?
Hoje eu sou “de tudo um pouco”, mas isso diz muito sobre o que é trabalhar numa organização do terceiro setor.
Entrei inicialmente na área de projetos. Depois, passei a atuar também com comunicação. Atualmente, organizo fluxos, dialogo com voluntários, ajudo na articulação de parcerias e faço as coisas acontecerem dentro do que está ao meu alcance.
Eu costumo dizer que ajudo a organizar a casa e isso envolve desde estruturar ideias até apoiar a execução de ações.
De quais formas a sua atuação na ONG contribuiu para sua trajetória acadêmica enquanto estudante de Relações Internacionais?
A Mawon virou ponte entre teoria e prática para mim.
Consegui levar a organização para dentro da universidade em diferentes momentos. Em uma disciplina de Marketing Internacional, desenvolvi com duas colegas um projeto propondo a expansão da Mawon para a Colômbia — considerando o contexto migratório do país, que recebe um grande fluxo de migrantes e muitas vezes funciona como país de passagem. Foi um trabalho que me marcou muito e que tirou nota máxima.
Outro projeto importante foi a articulação entre a Mawon e a Estácio. Junto com o Bob Montinard (cofundador da Mawon) e o professor Marco Manquian, estruturamos um curso gratuito de marketing digital voltado para imigrantes e refugiados, conectando universidade, terceiro setor e população migrante de forma prática e transformadora.
Essas experiências me mostraram que Relações Internacionais não é só diplomacia e geopolítica, é também política pública local, inclusão e impacto social direto.
Você já enfrentou algum desafio marcante dentro da Mawon? Como lidou com ele?
Um dos maiores desafios foi lidar com a limitação de recursos e, ainda assim, precisar entregar impacto real. No terceiro setor, muitas vezes trabalhamos com urgências humanas e poucos recursos, o que exige responsabilidade e criatividade ao mesmo tempo.
Aprendi a priorizar demandas, organizar fluxos internos, dividir responsabilidades e manter diálogo constante com a equipe. Mais do que resolver problemas pontuais, aprendi a manter estabilidade em meio ao caos e isso transformou minha forma de liderar.
Muitas vezes, precisei usar criatividade para viabilizar entregas, especialmente em eventos e ações públicas. Já houve situações em que não tínhamos orçamento para materiais ou estrutura, mas precisávamos estar presentes. Nessas horas, foi necessário pensar estrategicamente: reaproveitar recursos, criar materiais digitais, adaptar formatos, buscar parcerias e entender como comunicar nossa mensagem com o que estava disponível.
Essas experiências me ensinaram que impacto não depende apenas de recursos financeiros, mas de organização, visão estratégica e capacidade de mobilização.
Qual foi o maior aprendizado que você levou do contato direto com refugiados e comunidades afetadas pelas mudanças climáticas?
Que dignidade não é negociável.
O contato direto me ensinou que autonomia é mais importante do que assistencialismo. Muitas pessoas não querem “ser ajudadas”, querem oportunidades justas para reconstruir suas vidas.
Também aprendi sobre escuta. Sobre não falar pelo outro, mas criar espaço para que ele fale. Isso mudou minha forma de enxergar Relações Internacionais, menos teoria distante e mais humanidade concreta.
O que você acredita que a sociedade ainda não compreende sobre a realidade dos refugiados ou sobre os impactos das mudanças climáticas?
Acredito que ainda existe uma visão muito simplificada sobre refúgio. Muitas pessoas enxergam o refugiado apenas como alguém que “precisa de ajuda”, mas não como alguém que também traz conhecimento, cultura, força de trabalho e potência.
Além disso, pouco se fala sobre como mudanças climáticas, instabilidade política e desigualdade estão interligadas. Migração forçada não é um evento isolado, ela é consequência de sistemas frágeis, injustiça histórica e crises ambientais que atingem principalmente os mais vulneráveis.
Falta compreender que acolher não é caridade. É responsabilidade global.
Que mudanças você gostaria de ver nos próximos anos nas políticas de acolhimento aos refugiados e na agenda climática?
Gostaria de ver políticas mais integradas. Migração não pode ser tratada apenas como questão de segurança, e clima não pode ser tratado apenas como pauta ambiental.
Precisamos de políticas que conectem empregabilidade, regularização documental, educação e adaptação climática e, principalmente, políticas construídas com participação das próprias comunidades migrantes.
Também gostaria de ver o Brasil assumindo um papel mais protagonista na agenda climática com recorte social, entendendo que justiça climática é também justiça racial e migratória.
Como você imagina o seu próprio papel nessa luta daqui a alguns anos?
Eu me imagino atuando na interseção entre políticas públicas, clima e migração.
Seja dentro de uma organização internacional, no terceiro setor ou em articulação com o setor público, quero trabalhar estruturando políticas e projetos que unam impacto social e estratégia.
Hoje, eu organizo a casa. Daqui a alguns anos, quero ajudar a estruturar sistemas, sem perder a sensibilidade que me trouxe até aqui.
Que mensagem você deixaria para outros estudantes de Relações Internacionais?
Relações Internacionais não se limitam à diplomacia ou aos grandes organismos internacionais. Muitas vezes, entramos na faculdade sem ter uma visão ampla das possibilidades da área e acabamos acreditando que existe um único caminho profissional.
Mas o internacionalista é, na prática, um camaleão. Nós aprendemos a transitar entre contextos, temas e setores diferentes. Podemos atuar em comércio exterior, terceiro setor, políticas públicas, clima, migração, empresas, comunicação e muitas outras frentes.
Relações Internacionais também acontece no território, nas comunidades, nas organizações locais. Ela está nas políticas públicas municipais, nos fluxos migratórios que atravessam bairros, nas decisões econômicas que impactam vidas concretas.
Se aproximar da prática transforma completamente a forma como enxergamos o mundo. A teoria ganha rosto, nome e história. E é nesse encontro entre o global e o local que, para mim, a área realmente faz sentido.



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